domingo, 8 de março de 2026

O Bom da Vida



O bom da vida é ser diferente,
como o preto e o branco presente,
sol e chuva tão frequente;
de repente, me vi ausente.

O bom da vida
é nascer todos os dias,
borboletas sofrendo no casulo,
com dores que sangram escondidas.

O bom da vida
é poder, todo dia, se reinventar,
flores voltando a ser sementes
para suportar a calada sofrida.

O bom da vida
é acordar e ver o dia,
num repente voltar ao casulo,
onde nada fica eloquente.

O bom da vida
é te amar todas as manhãs,
como a abelha que, de flor em flor,
deixa a vida mais doce com amor.

O bom da vida
é te ter sempre ao meu lado,
colado em mim, meu ser amado,
que nem trovão pode separar.

O bom da vida
é olhar para você, sereno,
e saber que o amor eterno
aqui tem vida fluida,
num rio corrente de felicidade.

Autora: Darlene Maciel


A Maquina e a Bruxa


Dizem que toda mulher tem seu lado espiritual desenvolvido. Uns chamam de sensitiva; outros, de forma mais malévola, de bruxa. O fato é que sempre me senti mística, e lembrar de cada momento me deixou assim: saudosa.

Há quem afirme que já fui uma sacerdotisa de grande beleza e poder, capaz de decidir, sob minha ótica, quem poderia viver ou morrer. Eu me chamo bruxa, mas sem o poder de uma. Como bruxa, sou protegida de tudo; como benévola, tudo protejo; e, como perceptiva, não traduzo o que sinto e vejo.

Na adolescência e na fase adulta, toda essa espiritualidade se evidenciava por meio dos sonhos, nos quais a representação era sempre a vida, o nascer, o bebê.

Sim, salvei vidas, evitei mortes. Presenciei despedidas, senti medos e preferi não mais saber. Não desenvolver o que eu não podia — ou não posso — controlar. E hoje, saudosa, acredito que a vida mal vivida me excluiu desse dom. Hoje, são apenas sonhos.

De conversa em conversa, percebo que a bruxaria continua a existir por meio de máquinas que agem como humanos. Surge o medo real do futuro e das relações com os robôs. Já imaginou isso na época medieval? Conhecida como “Era das Trevas”, certamente veria a tecnologia como uma versão da bruxaria — o poder das mulheres e dos magos.

Hoje, o que se pensa se torna realidade. Nos filmes da infância, como Os Jetsons, víamos carros voadores, casas suspensas no céu, robôs domésticos. Pelos olhos medievais, tudo isso seria pura magia, condenada pela Igreja. Agora, vivemos com protótipos de carros voadores; há robôs servindo como garçons; videoconferências; e a comunicação não conhece distância. Além disso, existe a inteligência artificial.

Sim, tenho medo da inteligência artificial, que aprende com o que se questiona e se alimenta do conhecimento profundo de tudo. Assusta o poder do alto conhecimento numa máquina sem sentimentos. E até onde vamos chegar com os drones, que já são usados em guerras, quando antes eram apenas brinquedos que se tornaram ferramentas de trabalho para fotógrafos?

Há medo da destruição em massa pelos homens de poder, cujo defeito é a falta de índole. Homens carentes de memória, cuja capacidade acumulativa de saberes se perde em momentos de tensão e estresse do dia atribulado, no mundo das redes sociais. Uma teia semelhante à da aranha, cujo objetivo é prender sua presa — e nela estamos presos, por fios de energia interligados a tantos outros invisíveis ao olho nu.

Afinal, quem é a bruxa: eu ou quem criou a máquina que tudo faz?

Autora: Darlene Maciel

Pliês da Infância


Ao som do piano, em notas sonoras,
lembro da infância de outrora,
onde crianças brincavam na ponta dos pés,
num gesto infantil de quem queria bailar.

Tempos em que pliê e o contra‑pliê
eram tentativas de brincar de bailarina,
que desejava, no palco da rua,
dançar igual a uma colombina,
e na rua todos gritavam “ié!”.

Me lembro da menina de braços arqueados,
segurando, na ponta dos dedos, uma carnaúba,
dando elegância às mãos infantis,
no subir e descer dos braços,
em um gesto que a alma entoa,
beleza dos braços a flutuar.

E assim, no embalo da infância,
o rodopiar imitava o vento a girar,
com a força que só a natureza é capaz de captar.
Num contra‑pliê, a menina
se via uma gazela a se arquear,
seus braços feitos asas a bater,
para seu público encantar.

E eu, nas minhas lembranças,
me vi nesta menina.
Lembranças da juventude,
da menina que hoje é mulher,
ainda escuta o piano a tocar.

Autora: Darlene Maciel